Sr. João

18-11-2010 11:42

 

"Era um lar de terceira idade, o mais antigo da cidade. As paredes que revestiam o edifício davam-lhe a aparência de um local sombrio e triste. A chuva intensa do Inverno tinha-as lascado, criando manchas um pouco por todo o lado, tornando-o num lugar esquecido pelo resto da cidade. Fiquei a olhar para aquele cenário, um edifício tão envelhecido que contrastava com o verde aprazível do jardim. Parecia ter sido construído com a finalidade de oferecer uma velhice mais confortável e mais alegre para quem lá passa-se, porém, aos olhos do Sr. João, era apenas um sítio triste no qual teria que passar os últimos dias da sua vida. O seu olhar perdeu o brilho e ficou reduzido a um pequeno círculo castanho, que tentava, a custo, focar o horizonte para lá daquele edifício que lhe era demasiado familiar. Por momentos, perdi-me no silêncio que se abateu sobre nós e limitei-me a seguir o seu olhar, ficando a observar o horizonte. Durante um breve instante, tentei entender como seria viver na situação de alguém como o Sr. João. Toda a sua vida tinha trabalhado a terra para obter o seu sustento e, provavelmente, o da sua família, e agora, limitava-se a ficar fechado num lar, tendo apenas como ligação ao seu mundo, o jardim. Para ele, aquele pequeno pedaço de terra coberto por meia dúzia de árvores e alguns arbustos, era o mais próximo que algum dia iria ter do que em tempos fora a sua vida. Ali não haviam campos cultivados para serem trabalhados, não haviam animais para serem tratados, nem havia nada que fosse suficientemente natural para precisar dos cuidados de um agricultor. Era assim que eu imaginava como ele se sentia, sem utilidade. Era como um peixe fora de água, perdera a motivação para viver. Alguém que passe uma vida a trabalhar no campo, jamais se habituará à rotina consumista de uma cidade. "

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"Em passos lentos, acompanhámo-nos mutuamente pelo jardim, falando de coisas banais em que ambos perdíamos o pensamento. Não sei ao certo quanto tempo ficamos a conversar. As suas histórias envolviam-me de tal forma que o resto do mundo parecia desaparecer. Deixei de pensar nos problemas que me atormentavam e perdi-me na forma como o Sr. João dava vida às suas histórias. Desde os tempos em que tinha força suficiente para correr nos campos de milho e atravessar barragens a nado, até às suas grandes aventuras nas vindimas perto de Beja. Aquele homem tinha trabalhado toda a sua vida. Quando o cultivo próprio deixou de dar sustento, não baixou os braços e foi em busca de trabalho para as terras dos grandes agricultores. Fez de tudo um pouco na vida. Conhecia todas as técnicas para ser um bom agricultor. Adorei ouvir as suas histórias, as quais me encaminhavam o pensamento para os tempos em que eu própria corria nos campos cultivados. Ainda que nunca tivesse trabalhado a terra, por ser ainda uma criança, observava os adultos a fazê-lo. Ficava fascinada com a forma como faziam as coisas e por vezes tentava imitar o que via, criando pequenas hortas no jardim, das quais conseguia colher uma ou duas amostras do produto real."

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